MEMÓRIA URBANA

Mundo, constantemente.Junsu acha curioso como as pessoas sempre assumem que fotografia nasce de algum amor bonito pelas coisas. Como se toda câmera precisasse existir por encanto, arte ou fascínio estético. A dele nasceu muito mais da sensação desconfortável de perceber cedo demais que cidades esquecem rápido.Uma loja desaparece. Um prédio antigo some atrás de vidro espelhado. Um restaurante familiar vira franquia. E, depois de alguns anos, ninguém mais parece lembrar que aquilo existiu um dia. Talvez seja justamente por isso que nunca conseguiu se interessar por fotografia excessivamente limpa. Não vê sentido em transformar cidade em propaganda quando o que mais gosta nela são justamente os sinais de desgaste. Fios embolados atravessando poste, fumaça escapando de cozinha pequena, placas antigas resistindo entre outdoors luminosos, trabalhadores voltando pra casa com o rosto cansado demais para perceberem que alguém os observou por alguns segundos antes do clique...Existe algo profundamente humano em lugares que ainda parecem usados.E talvez seja esse o motivo de Junsu passar mais tempo observando do que fotografando de fato. Porque antes da câmera, sempre vem o hábito que beira ao obsessivo de tentar entender como uma cidade respira. O ritmo das pessoas, o barulho distante do trem, a luz acesa em apartamentos altos de madrugada... Como se estivesse constantemente procurando vestígios de história em lugares que o progresso já decidiu apagar.

MEMÓRIA FAMILIAR

Gyeongsang, 6 de outubro de 2025.A última vez que passou um feriado em Gyeongsang ainda parecia estranha no corpo de alguém que já se acostumou demais a viver indo embora. Talvez porque, depois de tantos anos atravessando aeroportos, estações e cidades diferentes, voltar para casa nunca pareça exatamente voltar para casa de verdade; só uma pausa temporária entre um destino e outro.A mesa cheia e comida demais para pouca gente. Os tios perguntando em qual país ele estava agora como se acompanhassem uma agenda impossível de decorar. A mãe reclamando melodramática de um filho cruel que não pensou duas vezes antes de abandonar o lar. E Junsu sentado no chão da sala observando tudo em silêncio por tempo demais, como alguém tentando registrar mentalmente pequenas coisas que normalmente ignoraria.O som da televisão ligada no outro cômodo. O cheiro de fritura ainda forte na cozinha. Os sapatos desalinhados na entrada da casa antiga, maltratada pelas décadas. A avó cochilando no sofá depois do almoço enquanto alguém discutia qualquer assunto irrelevante na mesa.Talvez tenha sido a primeira vez em meses que percebeu como sentia falta de gente vivendo perto dele sem que precisasse partir alguns dias depois.Ainda assim, quando o Chuseok terminou, arrumou a mala na mesma madrugada.

MEMÓRIA FELINA

Shanghai, 13 de março de 2026.O barulho começou perto das duas da manhã. Calmo demais para soar como uma tentativa de invasão, insistente demais para continuar ignorando.Quando abriu a porta da varanda, encontrou a responsável quase enfiada dentro de um dos vasos de plantas. Uma gata malhada, coberta de terra até as patas enquanto espalhava areia e folhas secas pelo chão de pedra sem o menor respeito pelas plantas (quase-mortas) da casa.O som da porta fez com que erguesse a cabeça imediatamente; atenta, suspeita, mas não assustada. Ficou encarando Junsu por alguns segundos em silêncio, como se ainda estivesse decidindo se ele merecia confiança ou não. E foi a reação que arrancou dele uma risada baixa, pouco mais do que ar escapando pelo nariz.Porque existia algo comicamente familiar naquela cena, nos dois ocupando temporariamente espaços que não pertenciam exatamente a eles.A gata piscou devagar primeiro, Junsu piscou em seguida.Então voltou tranquilamente a cavar o vaso destruído, como se já tivesse entendido que ele não faria nada para impedir a bagunça.

MEMÓRIA ROMÂNTICA

Shanghai, 29 de abril de 2026.Foi até o Jardim Guyi interessado muito mais na idade do lugar do que nas pessoas andando por ele. Os corredores antigos, as construções preservadas entre árvores cuidadas há gerações, a sensação estranha de silêncio que alguns lugares históricos carregam mesmo cercados por uma cidade do tamanho de Shanghai... Passou boa parte da manhã fotografando detalhes pequenos demais para chamar atenção de turistas. Pedra desgastada pelo tempo. Madeira antiga. Reflexos tortos na água parada dos lagos.E então o casamento começou.Não exatamente na frente dele. Primeiro vieram os sons. Risadas atravessando os jardins, tecido arrastando pelo chão de pedra, familiares correndo de um lado para o outro em desespero silencioso para manter tudo perfeito. Depois a noiva apareceu entre os corredores do jardim, vestida nos trajes tradicionais chineses, coberta por seda vermelha e detalhes dourados que pareciam acender ainda mais sob a luz da tarde, cercada de gente demais, felicidade demais e vida demais para que Junsu simplesmente fingisse que não estava acompanhando.Talvez tenha sido isso que o fez erguer a câmera.Porque, pela primeira vez naquele dia, o Jardim Guyi parecia menos um lugar preservado pela história e mais um lugar ainda sendo vivido por ela.Então fotografou sem interferir. O casal distraído entre uma troca de olhares. Os convidados cansados procurando sombra. O senhor dormindo sentado longe da cerimônia. Pequenos momentos que nunca entrariam no álbum oficial do casamento, mas que, para Junsu, carregavam muito mais verdade do que qualquer pose perfeitamente planejada.

MEMÓRIA INVENTADA

Shanghai, madrugadas de maio.Ultimamente Junsu passava tempo demais olhando notificações.Entre uma seleção de fotografias e outra, o celular acendia sobre a mesa bagunçada da casa em Longan. Mensagens longas demais para serem casuais. Indicações musicais. Capas de playlist. Histórias inventadas no meio da madrugada. Mentiras bobas e castigos cruéis. Conversas que começavam em arrependimentos e na pressa do mundo e, horas depois, terminavam em lugares que nem existiam de verdade.Uma biblioteca criada sobre uma mentira. O bar — esse existia, ainda que longe da sua realidade — com histórias interessantes demais para não acompanhar. Junsu nunca esteve em nenhum deles. Ainda assim, conseguia imaginá-los perfeitamente. O cheiro dos livros velhos. A versão do Rei de Amarelo e as notas esquecidas no rodapé. Xingamentos sobre Lovecraft. O som baixo de copos encostando no balcão. O drink azul, brilhante demais, cheio de glitter.Talvez porque algumas pessoas soubessem descrever lugares do mesmo jeito que ele fotografava cidades.Ultimamente respondia e-mails tarde demais da madrugada. Mensagens acumuladas entre fotografias sendo editadas e músicas repetidas vezes demais no cômodo. As juntas dos dedos começavam a doer depois de horas digitando. Os olhos ardiam pelo excesso de tela brilhante e noites mal dormidas.E, ainda assim, existia algo perigosamente confortável em perceber que aguardava aquelas notificações aparecerem.

MEMÓRIA CRUEL

Shanghai, 18 de junho de 2026.Durante muito tempo, Junsu acreditou que a pior parte das despedidas era a distância. Os fusos horários incompatíveis. As mensagens sem resposta. Os aniversários perdidos. A sensação inevitável de perceber que uma vida continuava acontecendo sem ele em algum outro lugar do mundo.Era simples de entender: as pessoas iam embora; ele também.O que nunca aprendeu a lidar foi com quem permanecia, porque existiam presenças muito mais distantes do que qualquer país. Pessoas que continuavam aparecendo nas mesmas ruas, nas mesmas conversas, nos mesmos espaços... Ainda próximas o suficiente para serem alcançadas. Ainda presentes o bastante para que a ausência não pudesse ser explicada pela geografia.E, ainda assim, inalcançáveis.Talvez fosse culpa dele.Sempre existiu uma imprudência quase infantil na forma como se apegava aos outros. Fazia isso sabendo que partiria. Sabendo que, em algum momento, muitos km de moto, um trabalho novo ou uma cidade diferente surgiriam no horizonte.Mesmo assim insistia. Criava hábitos, memórias, afeto. Agia como alguém plantando raízes em solo temporário.O problema era que algumas pessoas encontravam formas de partir sem sair do lugar.As conversas diminuíam. O interesse desaparecia. As respostas chegavam vazias, automáticas, educadas demais para parecerem verdadeiras. E, de repente, alguém que estava a poucos minutos de distância passava a parecer mais longe do que qualquer pessoa que ele havia deixado em outro país.Junsu conhecia a saudade.Mas existia algo particularmente cruel em sentir falta de alguém que continuava ali, ao alcance dos olhos, mas fora do alcance de todo o resto.

I GO IN SHADOWS

Haviam cidades bonitas e cidades honestas.Junsu passava a maior parte da vida procurando pela segunda opção. Nunca conseguiu se interessar muito por lugares perfeitos demais, limpos demais, organizados demais. Gostava de cidades cansadas. Das que carregavam marcas visíveis de uso. Placas antigas resistindo entre outdoors luminosos, restaurantes pequenos espremidos entre concreto caro demais, fios embolados atravessando postes e gente voltando para casa tarde da noite com o rosto abatido pelo trabalho. Existia algo profundamente humano em lugares que ainda pareciam usados.Ao decorrer dos anos, havia aprendido a se acostumar com a ausência de permanência. Aeroportos, apartamentos alugados por tempo demais para serem hotéis e pouco o suficiente para serem casa, línguas diferentes atravessando ruas lotadas, estações de trem, mapas dobrados dentro dos bolsos de casacos esquecidos. Existia uma liberdade quase viciante em viver daquela forma. A sensação constante de movimento, de não dever estabilidade a lugar nenhum, de desaparecer antes que qualquer espaço realmente esperasse sua permanência.E ele gostava daquilo.Gostava demais.Das cidades desconhecidas. Dos bares pequenos escondidos entre ruas movimentadas. Das madrugadas gastas caminhando sem rumo enquanto observava janelas acesas em apartamentos altos demais, modernos demais. Gostava do desconforto temporário, das malas nunca completamente desfeitas, dos idiomas mal pronunciados e da estranha sensação de pertencimento que surgia por alguns meses antes de voltar a desaparecer. Não existia arrependimento verdadeiro nas escolhas feitas. Nem nas despedidas rápidas demais. Nem nas mensagens respondidas dias depois. Nem nas pessoas que acabavam ficando para trás entre fusos horários incompatíveis e vidas impossíveis de acompanhar à distância.O problema era que liberdade também desgastava.E aquilo começava a aparecer nas pequenas coisas.No peso constante das olheiras abaixo dos olhos. Nos dedos pressionados contra as têmporas enquanto encarava telas brilhantes tarde demais da madrugada. Nos suspiros cansados escapando enquanto organizava fotografias de cidades que talvez nem existissem mais da mesma forma. Nas chamadas perdidas acumuladas sem resposta. Nas conversas que começavam a soar estranhas pela simples incapacidade de continuar pertencendo à rotina de alguém. Às vezes passava minutos inteiros encarando telas de conversa abertas sem conseguir pensar em uma resposta que não parecesse distante demais.As cidades mudavam rápido demais.As pessoas também.Uma loja desaparecia. Um bairro antigo virava concreto novo. Pequenos restaurantes eram substituídos por vidro espelhado e iluminação branca demais. E Junsu passava a vida inteira registrando lugares em estado de remanescência enquanto talvez começasse, ele mesmo, a existir daquela forma. Como alguém constantemente de passagem. Como alguém que aprendera tão bem a partir que já não sabia exatamente o que significava ficar.